Um grupo de amigos decide se aventurar pelos bosques remotos do Texas remotos para um fim de semana de festa, até que se veem perseguidos pelo feroz e lendário Pé Grande.
Entrou recentemente para o catálogo da Amazon Prime Video o filme Eles Existem, cujo título original em inglês é "Exists", nos traz a velha pergunta: quando é que hão de demitir os responsáveis por traduzir os títulos para nossa língua? É claro que ao usar o verbo conjugado dessa forma, sem nenhuma nome ou pronome que normalmente deveria precedê-lo de modo que indicasse a pessoa a que se atribui o verbo - regra, aliás, que vale mesmo quando não há sequer sujeito a ser determinado - como - "It rains" por exemplo - evidente não se trata de um erro propriamente dito e deve haver algum motivo para que um título tão curioso.
Podemos, com alguma segurança, supor que o diretor usou dessa licença poética por querer mesmo dar um ar de indeterminação, caso a intenção fosse produzir um certo mistério ou mesmo uma recusa em deixar claro o "existe", projetado num mistério inexplicável e nos deixando com o suspense de quem ou quê existe? De fato, não se pode legitimamente inferir do título que seja um "ele", um "ela, ou mesmo um "it". Levar o suspense ao nível da linguagem é a única razão para nomear o indecifrável.
Mas eis que optam, em nossa tradução, não apenas por estragar a brincadeira que já seria parcialmente perdida pela própria dificuldade da traduzibilidade para nossa língua, na qual nosso verbo indica pela própria desinência, em partes e em casos, o pronome pessoal que se encontra oculto. Mas não! Não era o suficiente! 'Vamos jogar o pronome "Eles" também', revelando assim até mesmo o que do título original não se permite afirmar. Peço perdão pelo desabafo. Passo então a falar do filme.
Com esse filme, Eduardo Sánchez se lança na mata para tirar do poço de inspiração que catalisou o sucesso de A Bruxa de Blair (The Blair Witch Project, 1999). Embora o filme obedeça aos ditames do paradigma da filmagem de seu clássico de 1999, seu estilo de cortes (bem exemplificado pelo próprio título) é inicialmente refrescante, pois praticamente trata o Pé Grande com a plausibilidade de um ente verossímil, como quando se vê apenas a devastação do caminho que leva a uma cabana no sertão do leste do Texas. Sem o vermos, imaginamos, e ampliamos seu poder pelos efeitos de sua destruição. Mas quando se apresenta a figura do próprio Sasquatch, perde-se toda a graça. Os personagens, é verdade, parecem cansar-se de flertar com aquela marca de autoconsciência claramente comida pelas traças, existentes no filme apenas para servir como carne morta. É involuntariamente engraçado como o cartão de abertura explícito com o alerta: "Especialistas concordam que as criaturas só são violentas se forem provocadas" é esquecido cerca de cinco minutos depois, algo previsível.
Sánchez até consegue alguns ângulos de sacudida no rápido movimento do Pé Grande e na sua fúria hercúlea, que misteriosamente leva os personagens a uma série de cantos apertados, em meio a ampla floresta aberta. De fato, as pretensas ambições metafóricas de Exists são tão pouco perceptíveis quanto o uso de imagens de histórias reais. Qualquer ideia que talvez houvesse implícita de uma reflexão sobre a empatia entre seres de distintas espécies soa extremamente superficial.
Em suma, nada convence muito bem e impressão que fica é apenas a de que tanto esforço em nos fazer crer em Exists só pode ser porque não deve existir.


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